Pranchas, limitações físicas e preconceito: quanto custa ser um surfista profissional em Alagoas

Clara Holanda é uma das surfistas alagoanas que está ganhando espaço  — Foto: Arquivo Pessoal/Clara Holanda
Clara Holanda é uma das surfistas alagoanas — Foto: Arquivo Pessoal/Clara Holanda

Alagoas é frequentemente lembrada pelas belas praias. E são nelas que surgem grandes nomes do surfe brasileiro. Para quem está começando na carreira o desejo sempre é surfar o máximo de ondas, no máximo de países, mas até isso se tornar realidade, muita água rola entre as praias do Francês e do Sobral.

A série “Quanto custa”, do GloboEsporte.com, conversou com os surfistas alagoanos Amando Tenório, Vini John John e Clara Holanda sobre a rotina, os investimentos e as dificuldades que um atleta profissional precisa enfrentar durante a carreira.

Os atletas precisam pagar pelas pranchas, material de segurança, inscrições em campeonatos… Quando há patrocínio, tudo facilita. É fato que o esporte vem crescendo no estado, mas, afinal, quanto custa ser um surfista profissional?

Para ter uma boa prancha e material seguro, o investimento varia entreR$ 1 mil e R$ 3 mil, fora as inscrições em eventos, que podem começar em R$ 50, mas aumentarem de acordo com a competição. Os atletas que disputam fora do estado ainda precisam arcar com a viagem.

Amando Tenório, uma das revelações do esporte, briga pelo título brasileiro de surfe. Atleta de alto nível, Amando tem patrocínios que o ajudam a ter sempre um melhor desempenho na água. Apaixonado pelo esporte desde que foi influenciado pelo pai, o surfista sabe que praticar o esporte profissionalmente não é tão barato.

– Vivo do surfe, surfe além de ser meu hobbie, é meu trabalho. Mas o surfe se torna um pouco caro porque você precisa de um equipamento de qualidade para ter uma boa performance. Com a falta de patrocínio, se torna caro, dependendo de onde for o evento, o mais próximo no mínimo o gasto é de mil reais – revelou o atleta.

É preciso ter um quiver de pranchas (conjunto de pranchas que um surfista tem), ou seja, ter mais de uma em casa. E tudo influencia na escolha: peso, altura, tipo de onda, condicionamento e habilidade do atleta. Ter um quiver de 3 a 5 pranchas, por exemplo, deixa o surfista apto para competir. Isso sem contar que a vida útil de uma prancha para aqueles que competem, não passa de 5 meses.

Experiente surfista e mestre em fazer pranchas, Marcelo Rodrigues, ou apenas MR, comenta sobre o tempo de uso de uma prancha e os valores. Surfar pode ser caro para quem não tem patrocínio.

– Para um cliente uma prancha pode chegar até 7 meses, para um competidor fica uma média de 5 meses. O valor de uma boa prancha, uma versátil, fica entre R$700 e R$2 mil. É o valor que eu vendo… E é melhor ter três pranchas do que ter só uma, porque é um esporte de impacto, uma prancha pode quebrar de acordo com a onda – explicou.

O início sempre é o mais difícil, realmente, não dá só para pegar uma prancha e se jogar nas ondas. Para Vini John John, jovem de 13 anos, que é uma das apostas do esporte no estado, começar no surfe deu trabalho, mas hoje já vê recompensas. Desde os seis anos surfando em Alagoas e Sergipe, ele se lembra dos seus primeiros passos. Nem faz tanto tempo.

– Quando está dentro d’água, ele só tem uma visão: surfar mais que todos para ser o vencedor da bateria, até porque ele não irá saber qual será a sua colocação… Como pai e educador físico, o esporte é a maior chave de inclusão do indivíduo. Tento sempre colocá-lo em contato com vários esportes, quanto maior estímulo motor ele tiver mais desenvolvido ele será – explicou Aislan.

Vinícius é considerado um dos grandes nomes da categoria mirim — Foto: Reprodução/Instagram
Vinícius é considerado um dos grandes nomes da categoria mirim — Foto: Reprodução/Instagram

Um detalhe sobre o atleta é que ele é deficiente auditivo, em um dos ouvidos ele tem apenas 10% da audição, e assim compete sem ter os avisos sonoros emitidos durante as provas. O pai, Aislan Pontes, se tornou o seu grande auxílio, e ele detalha sobre a forma que Vini se supera com o esporte. É como se ele surfasse sozinho.

– A dificuldade dele é enorme, ele praticamente surfa sozinho. Quem fica na areia como técnico, e o ajuda sou eu. Eu fico o tempo todo dizendo a colocação que ele está, o que ele precisa fazer… É ele do mar, e eu da areia. É uma sensação única… Quando ele entrou no esporte foi a maior felicidade do mundo, afinal, eu sou surfista há muitos anos… Através do esporte ele não tem deficiência nenhuma. No mar, ele é igual a todo mundo – disse o pai.

No outro lado da onda, está uma dificuldade particular encontrada por Clara Holanda, que aos 17 anos, viu no surfe um estilo de vida. Por ser mulher, a competição também é contra maus olhos. Campeã de circuitos estaduais, apesar da pouca idade, ela sabe que o importante é o surfe.

– Vai muito além do esporte, porque mudou a minha vida. Mas a aceitação das mulheres em qualquer esporte é muito difícil, e no surfe é ainda mais. As empresas encontraram nos homens o talento como atleta e nas meninas apenas vitrine para promover marcas. O espaço que as meninas procuram é ser mais que vitrine padrão, e, sim, atletas reconhecidas por seu talento, assim como os homens são – disse Clara.

Clara reconhece que no seu caso ter patrocínio ajuda bastante, mas ainda assim nem sempre é suficiente. A luta da atleta é diária, e é necessário se reinventar para continuar praticando o esporte.

– Pela falta de oportunidades de apoio e patrocínio, às vezes, nossos sonhos ficam limitados, mas não deixo isso levar, e luto para conseguir rendas para os circuitos em outros estados e até mesmo aqui. O maior gasto é com equipamentos e quando vou competir. Tenho de gasto a alimentação, passagem, inscrições… E com isso às vezes dou até um ”faz a mais”, vou vender sanduíche natural na praia – contou a atleta.

Fonte: Globoesporte /AL