Recuperação financeira, ‘rodízio’ de técnicos, poucas variações:mostra saga do CSA até a elite

CSA - comemorando título da Série C
Foto: Lancenet

A espera do CSA por sua volta à elite custou 32 anos e uma boa dose de ousadia da diretoria. Contando com um planejamento inusitado, que depositou suas fichas em busca de resgatar o clube, o Azulão do Mutange termina a temporada de 2018 com um feito raro no futebol brasileiro. Com a goleada por 4 a 0 sobre o Juventude no Alfredo Jaconi, no último sábado, a equipe terminou a Série B como vice-campeã, obtendo seu terceiro acesso em três temporadas consecutivas.

– Quando nós assumimos, em julho de 2015, o clube estava praticamente falido, cheio de dívidas. Além disto, não teria o restante do ano para disputar competição, porque foi mal no Alagoano e não iria jogar na Série D. A gente teria de apostar o capital, né?  – afirmou o mandatário Rafael Tenório, ao LANCE!.

De acordo com o dirigente, que é empresário, as mudanças de patamar da equipe foram bem calculadas:

– Fizemos uma gestão empresarial para sanar as dívidas do clube. Já para a equipe, traçamos as metas, premiações, e fiquei muito presente no dia a dia.

A partir daí, o CSA recorreu a uma curiosa mescla:

– Eu escolho os técnicos de acordo com cada competição e, na rotina da equipe, tento ficar presente. Contratamos jogadores com custo e benefício mas, mesmo com os acessos, vamos mantendo uma base de elenco – detalhou o dirigente.

Com ingredientes como “entra e sai” de técnicos, a manutenção de parte do elenco desde 2016 e a ajuda de um auxiliar técnico que é ídolo do clube, o Azulão superou suas adversidades e, no mesmo ano em que quebrou um jejum de dez anos no Estadual, voou até a elite.

Ainda em meados de 2015, o CSA iniciou seu ambicioso projeto. Oliveira Canindé teve o desafio de montar o elenco a partir da disputa do Estadual do ano seguinte:

–  Eu já tinha uma passagem anterior pelo CSA, isto me ajudava a ter espaço para montar o time. Fomos vice-campeões alagoanos e garantimos uma vaga na Série D – recorda o treinador.

O Azulão também contou com um “talismã” na comissão técnica: Jacozinho voltou a desembarcar no clube. O ex-jogador do clube nos anos 1980 (e que ganhou destaque nacional ao participar de um amistoso promovido por Zico no Maracanã em 1985) retornara ao Mutange e acabara ganhando um cargo na equipe do CSA:

– Eu, a princípio, ia ser garoto-propaganda do CSA. Mas, com o passar do tempo, me tornei auxiliar-técnico. Por eu já ter jogado aqui, passava para os atletas a importância que era vestir essa camisa. Aí eu já trocava uma ideia com o Oliveira (Canindé), que é um cara muito inteligente, eu dava uma ajuda para os jogadores com relação a alguma tabela que eles podiam fazer.

Entre os jogadores contratados para 2016, estava Didira. O meia, que é um dos destaques do atual time da Série B, relembra como foi sua chegada:

– Quando recebi o convite do CSA, não pensei duas vezes, principalmente por estar em um clube grande, que estava se projetando para evoluir. Era um projeto muito interessante, de tirar a equipe da situação que estava e levar para a elite.

O jogador de 30 anos (que tem passagens por clubes como ABC, Atlético-MG e ASA), não é o único a seguir no clube alagoano. Oliveira Canindé guarda boas lembranças de quem começou com ele no CSA:

– Xandão, que voltou há pouco tempo, Leandro (Souza)… Todos trabalharam comigo.

O presidente do clube, Rafael Tenório, exalta esta manutenção da equipe:

– Quase todos os titulares são daquela equipe de 2016. Didira, Rafinha, Leandro (Souza) estavam na Série D.

A equipe alagoana carimbou sua ida para a Série C ao eliminar o Ituano nas quartas de final. Depois, chegou à decisão, mas foi vice-campeã da competição (amargando a derrota na final para o Volta Redonda, por 4 a 0). No entanto, Canindé aponta que ficou um legado para o clube, e não só em relação ao elenco:

– Tudo foi mudado. Não tinha nada lá quando a gente chegou. O Rafael (Tenório) deu amparo, condições para termos o departamento físico, campo, tudo em condições… É bom que comecei a tirar o CSA desta “invernada” e ver que este grupo faz parte de uma história tão bonita. Só tenho gratidão por este período.

Sua passagem durou até maio de 2017, quando o CSA amargou a perda do Estadual para o CRB. Porém, o Azulão do Mutange teria um sonho ainda mais alto para buscar.

O CSA confirmou seu desejo por garantir uma das vagas do G4 da Série C de 2017 logo ao anunciar o nome do técnico. O escolhido foi Ney da Matta, campeão da competição com o Boa Esporte no ano anterior:

– Eu escolho o treinador de acordo com a dificuldade de cada etapa. Sabia da qualidade do Ney, vi a maneira como ele tinha garantido uma ótima campanha do Boa. Fez um time muito organizado nossa – conta Rafael Tenório.

O treinador mostrou gratidão ao dirigente pelo período que ficou no CSA:

– O Rafael (Tenório) escutou muito a gente. Nesta visão empresarial dele, de valorizar cada pessoa, a ponto de dar uma participação nos lucros para todos os funcionários, foi muito bom.

Jacozinho exaltou a maneira como o técnico soube ouvir seus conselhos:

– Às vezes, quando ele passava que algum jogador ia ser cortado, eu ia e aconselhava: “não corta esse aqui não, ele pode jogar bem”. Deixou o time bem encorpado.

No entanto, nem tudo foi calmaria para o Azulão. Mesmo passando de fase, houve atritos internos. Após se envolver uma briga com o ex-corintiano Rosinei em um treino, Ney da Matta foi demitido do clube:

– Houve um desencontro do Ney com alguns jogadores do grupo. Ele não se entendia com alguns jogadores, aí quem era preterido ficava descontente. Foi quando veio esta confusão com o Rosinei. Aí, entrei em circuito e decidi mudar a comissão técnica – relembrou Rafael Tenório.

O dirigente usou como cartada um nome bem conceituado nas divisões inferiores de futebol. Flávio Araújo, que tinha dois acessos anteriores com o Sampaio Corrêa.

– Na verdade, o Flávio veio graças à indicação de um presidente de outro clube. Ele nos ouviu, tivemos algumas mudanças pontuais e fomos para um final feliz na competição.

Flávio Araújo contou como foi o desafio de tomar as rédeas do CSA em meio a uma turbulência. Ele assumiu o comando da equipe o jogo de ida das quartas de final da Série C, contra o Tombense, primeiro passo na busca pelo G4.

– A equipe vinha em um bom momento dentro de campo. Mesmo assim, a diretoria me deu muito respaldo, o Jacozinho deu alguns conselhos sobre como a equipe podia ser montada.

jacozinho recorda como foi a chegada do novo treinador:

– Passei o relatório para ele de tudo o que a gente tinha. Tirei as dúvidas. Flávio deixou muito conhecimento, aprendi muito com ele…

A equipe garantiu novo acesso com duas vitórias sobre a equipe mineira: 2 a 0 e 1 a 0. E, mais tarde, conquistou seu título, graças a um empate em 0 a 0 com o Fortaleza (no jogo de ida, o Azulão venceu por 2 a 1 fora de casa):

– Aos poucos, fui colocando em campo minha maneira de escalar o CSA. Passamos pelo São Bento e, depois do jogo com o Fortaleza, foi muita festa. É um título muito marcante mas, sendo sincero, só dei uma ajudinha, porque o CSA já estava em um bom momento – afirma Flávio Araújo.

Contudo, após maus resultados no início deste ano, o treinador campeão da Série C foi demitido devido à eliminação da equipe alagoana na Copa do Brasil, diante do São Paulo. Só que o ano de 2018 aguardava uma alegria ainda maior entre os azulinos.

A expectativa para pôr fim a uma longa ausência do CSA na elite do futebol nacional ganhou contornos ainda mais fortes entre torcida e diretoria. Na busca por um novo acesso, Rafael Tenório apostou em um nome de impacto:

– O Marcelo Cabo já tinha sido campeão da Série B (com o Atlético-GO, em 2015). Ele soube trazer esta experiência dele para os jogadores.

Sob seu comando, a equipe foi campeã alagoana após dez anos de jejum (batendo por 2 a 0 o rival CRB na decisão). Mas, àquela altura, o planejamento azulino já estava plenamente voltado para a disputa da Série B:

– A gente manteve a nossa base que está desde a Série D de 2016, só que foi trazendo alguns jogadores que vieram como oportunidade de mercado. Foram os casos do Juan, do Walter, do Neto Berola… – afirmou o dirigente.

O CSA foi alçando degraus na classificação. E, mesmo depois de ver a vaga do G4 ter sido ameaçada, devido ao percalço em casa contra o Avaí, o clube alagoano não se intimidou. Em pleno Alfredo Jaconi, garantiu sua vaga atropelando o Juventude por 4 a 0, contando com show de Neto Berola, que marcou três gols.

Jacozinho, que segue como auxiliar-técnico do clube, valoriza a postura de Marcelo Cabo, que garantiu o terceiro acesso consecutivo do CSA:

– Ele soube assumir com pulso firme o time. Trouxe alguns jogadores que são da confiança dele, mostrou uma boa visão de jogo. Ele deu até um espaço para que eu sugerisse que o Edinho (hoje no Ceará) desse um drible diferente, que melhorou muito o futebol dele É um ótimo técnico para trabalhar.

O meia Didira exalta a postura do atual treinador azulino:

– É um treinador experiente, né? Marcelo Cabo dá moral, apoia todo mundo e é bem dedicado ao trabalho. Trata-se de um cara que motiva cada jogador. Isto tem sido muito importante para nós.

Sob seu comando, o jogador de 30 anos conseguiu algo atípico de sua trajetória: ser o artilheiro da equipe. Didira marcou sete gols na Série B.

– Eu almejava jogar bem, para ser lembrado. Mas imaginava que ia ser desta forma, brigando pela artilharia e vivendo um momento desses, me destacando tanto. Para mim, é muito gratificante.

Didira aponta o que pesou para o clube alagoano voltar à elite:

– A união, o companheirismo. Todo mundo tem o mesmo objetivo. Isto é fundamental para a gente.

Questionado sobre o “saldo” do investimento feito no CSA desde que assumiu a presidência, Rafael Tenório não esconde sua alegria:

– Agora, o clube já tem conseguido pagar seus compromissos;.  Isto é algo muito bom para nós, que pegamos o CSA tão endividado. A gente já está em dia com leis trabalhistas, décimo-terceiro, FGTS, no Profut. Principalmente, graças ao dinheiro que conseguimos com os patrocínios.

O dirigente também conta o que pesou para a evolução nas quatro linhas:

– Temos uma equipe bastante comprometida, um ambiente unido, muito bom de trabalhar.

Segundo Didira, esta ascensão da equipe traz um aprendizado para quem defende o CSA:

– É um crescimento muito rápido que vem acontecendo para a gente. Acho que serviu de aprendizado para mim. Vivi momentos bons e ruins aqui. Mas estar neste momento sensacional é muito marcante.

Já vislumbrando a elite do Brasileirão, o CSA traça suas primeiras metas para a temporada de 2019. Segundo o mandatário do clube, Rafael Tenório, no que depender dele, não haverá mudança no comando da equipe:

– O Marcelo (Cabo) já tem passagem pela Série A, não tem porque a gente mudar o comando. Confiamos muito no trabalho dele, que é muito bem feito.

Quanto a reforços, o dirigente despista:

– Temos de qualificar a equipe. Mas, naturalmente, não vamos fazer nenhuma loucura.

A confiança pelo retorno do CSA à elite do futebol nacional também faz parte de quem já defendeu o clube na competição. Destaque do elenco azulino no ano de 1986, Mário Tilico relembra como foi sua trajetória pelo clube naquela competição:

– Eu cheguei emprestado pelo Vasco para o CSA. Era minha segunda passagem, eu estava em uma equipe muito mesclada. Tinham jogadores jovens que queriam se destacar, como eu, mas também alguns experientes, jogadores esforçados como Nívio, Marcelo. Fomos bem na primeira fase, passamos, só que na segunda fase, não rendemos em algumas partidas, aí caímos na chave que tinha o Cruzeiro e a Portuguesa.

Na classificação geral, o Azulão ficou na 25ª colocação (a competição foi disputada por 48 clubes). Em 26 jogos, foram sete vitórias, dez empates e nove derrotas.

No ano seguinte, o clube alagoano ainda disputou o Módulo Amarelo da Copa União. Porém, o CSA teve campanha pífia na competição: em 14 jogos, obteve apenas duas vitórias, amargando a última colocação. A competição foi vencida pelo Sport.

Campeão brasileiro de 1991 pelo São Paulo e com passagens por clubes como Vasco, Cruzeiro e Fluminense, Tilico vê com confiança o CSA recém-promovido à elite do Brasileirão::

– É uma equipe muito equilibrada, que sabe jogar bem em casa. Acredito que o CSA tenha condições suficientes para, no ano que vem, iniciar sua preparação e formar um time competitivo.

No entanto, o ex-meia, que já trabalhou como técnico do clube alagoano em 2011, faz um alerta:

– Eles têm que se reforçar com alguns jogadores. A Série A é uma competição de nível mais forte, tem adversários muito qualificados. Embora o atual elenco tenha uma boa base, contar com jogadores que conhecem os atalhos da elite faz muita diferença.

Palavra de quem conhece bem as turbulências de levantar voo com o Azulão na Série A.

 

 

 

 

 

 

 

Por Vinícius Faustini / Lancenet